domingo, 1 de junho de 2008

Azerutan, a estátua de carne e osso



Antônio Carlos, ou Azerutan, é um dos pioneiros da arte de Estátuas Vivas no Brasil e vive se camuflando em meio à selva de pedra da metrópole paulista.


POR FERNANDO OLIVEIRA

Um pequeno aglomerado de pessoas congestiona uma das calçadas da Av. Paulista. Estão admirando uma estátua viva, profissão de Antônio Carlos, aliás, Azerutan, como prefere ser chamado. Seu nome artístico foi criado por ele mesmo e é baseado em um índio da tribo pernambucana Xucuru Quiriri.

Azerutan é paulistano, solteiro e prefere ocultar a idade. “Eu não gosto de falar muito sobre isso, mas posso dizer que tenho mais ou menos 40 anos”, diz ele, um tanto encabulado, mas sorrindo. Com 13 anos de profissão, é um dos pioneiros no Brasil dessa arte milenar, de origem grega. “Começamos, eu, Léo Áquila e Terezinha Malaquias”, conta.

Segundo ele, em sua profissão não basta apenas fantasiar-se e ficar parado por horas esperando as contribuições de quem passa. Ele explica citando sua mais nova “encarnação”. “Além de todas as personagens terem um custo muito alto, também tem que estudar toda a sua história e seu significado. Minha personagem mais nova é o Fernando Pessoa. Me apresento como ele há uns 2 anos e ainda estou aprimorando.”

Ele não é um simples trabalhador informal na grande metrópole paulista. É um estudioso da arte. Já fez teatro, yoga, dança e é formado em Artes Plásticas. Devido a tanta preparação, ele afirma ser o mais complexo de todos os estátuas vivas. Entretanto, no decorrer de sua vida já trabalhou como carteiro, garçom e foi professor de Educação Artística, mas foi como artista independente que acabou encontrando um modo rentável de se sustentar. Das ruas vem parte do dinheiro de seu sustento, e sempre que pode busca algum lugar onde tenha um número maior de turistas. Segundo ele, os turistas pagam melhor e com mais freqüência. A outra parte, a maior dela, chega de apresentações em eventos.

“O dinheiro arrecadado em uma semana de trabalho na rua não é suficiente para minhas despesas. Ganho mais trabalhando em eventos onde pagam 150 reais por hora de trabalho”, esclarece. “Conforme o tamanho do cachorro, eu corro mais ou corro menos”, reflete.

Uma das reclamações do artista envolve a falta de reconhecimento das pessoas para o que ele faz. “No começo foi bem difícil, as pessoas não estavam acostumadas com artistas trabalhando ao ar livre. Elas atiravam pedras, me empurravam e até xingavam a minha mãe”, desabafa. Em seguida, cita a Europa como exemplo de um lugar em que o seu trabalho é valorizado e respeitado. “Minha arte é nobre, mas a maioria das pessoas ainda não conhece. Na Europa, artistas como eu são muito respeitados e têm o trabalho reconhecido. As pessoas de lá pagam até pra tirar fotos!”

A falta de organização dos “estátuas vivas” (segundo Arezutan, são aproximadamente 40 deles na capital) faz reduzir as possibilidades da formação de uma associação para esses artistas que gostam de trabalhar por conta própria. “Ainda não conseguimos fundar uma associação, as nossas idéias divergem, mas em uma coisa concordamos, não gostamos de patrão, por isso trabalhamos sozinhos”, comenta.

Azerutan já viajou para diversos lugares para participar de eventos, muitas vezes como um dos convidados principais. “Já fui para vários Estados, mas foi na Bahia que fui melhor recebido e tive maior reconhecimento. Mesmo assim, São Paulo é onde tudo acontece.” Apesar de ter visitado tantos locais a trabalho, Azerutan conta que a França é o destino de seus sonhos devido à referência artística que é o país. Ele também planeja fazer bacharelado em Paris.

Com uma grande variedade de personagens para apresentar, entre eles, Santos Dummont, Anjo Ieialel, Mestre Sala e Ranuman (um deus indiano), o que se destaca e emociona mais o público é o de São Francisco de Assis. “As pessoas mais religiosas chegam a chorar de emoção”, conta.

O tempo em São Paulo começa a fechar. Eu e Azerutan temos que correr para tirar todas as suas coisas debaixo da forte chuva que começa a cair. Aproveitando o mal tempo, faço minha última pergunta para o artista:

- Qual é a melhor época para se trabalhar na rua?
- Olha, não tenho uma época ou estação do ano preferida para trabalhar, todas são boas. Os maiores inimigos dos artistas de rua, inclusive eu, são temporais como esse!

Azerutan resolve que está na hora de tirar toda a sua fantasia e também a tinta cor de pedra que cobre sua pele. A chuva dá uma trégua e eu me despeço. Antes que eu vá, ele me entrega um bilhete com os seguintes dizeres: “Nunca desista de seu sonho!”. Em seguida, agora simplesmente Antonio Carlos, sem toda sua fantasia, diz:

- Este é um bilhete que entrego a todos que contribuem comigo enquanto trabalho. Vá com Deus! Ah, e não se esqueça de me trazer a matéria pra eu ler depois, gosto dessas coisas!

2 comentários:

Dennis Ramos disse...

http://www.flickr.com/photos/dennis_rw/5538985810/in/photostream

Lygia Nery disse...

http://www.flickr.com/photos/lygianery/5946837445/in/photostream